A Fundação
O Mandato Originário
A história do CEPSERIS não nasce de uma vontade isolada, mas de um mandato sagrado conferido pelo Mestre Irineu Serra. Em 1962, Padrinho Wilson Carneiro de Souza procurou o Centro de Irradiação Mental Luz Divina buscando cura para seu filho José, gravemente enfermo, e para si próprio — sofria de tosses crônicas após oito anos de desenganado pela medicina oficial. Desenganados pela medicina de Rio Branco e pelas práticas espirituais locais, a família depositava sua última esperança no trabalho espiritual que o Coronel Holderness Maia, seu amigo, lhe havia recomendado.
Naquele trabalho com Mestre Irineu, ambos receberam cura. Agradecidos, Wilson e sua esposa Zilda começaram a integrar as fileiras dos fardados. Passados quatro anos de serviço dedicado, em 1966, Mestre Irineu reconheceu a vocação de Wilson e lhe conferiu a zeladoria de um Pronto Socorro de Cura Raimundo Irineu Serra — um espaço destinado a atender aqueles que, impossibilitados de chegar até o Alto Santo (especialmente durante as chuvas), buscassem auxílio emergencial pela doutrina do Santo Daime.
As instruções de Mestre Irineu eram precisas: não oferecer Daime a ninguém, mas a quem procurasse nunca negar; se o doente pudesse ir até a casa de Wilson, seria atendido ali; caso contrário, Wilson iria à residência do enfermo, ministrava o Daime e permanecia no mínimo duas horas prestando assistência espiritual.
Este serviço de caridade foi localizado na Vila Carneiro, nas proximidades da Colônia Cinco Mil, na periferia rural de Rio Branco, criando um ponto de acesso vital entre a cidade e a sabedoria amazônica do Alto Santo. Wilson também foi encarregado de despachar, pelo Correio Aéreo Nacional, o Daime enviado para outras comunidades daimistas, como a de Porto Velho em Rondônia, consolidando sua função como guardião de uma rede de cura que transcendia fronteiras estaduais.
"Meu filho, quer trabalhar?"
— Mestre Irineu Serra
O episódio em que Mestre Irineu entregou definitivamente o Pronto Socorro a Wilson é narrativa fundacional da instituição. Segundo os relatos conservados pelo CEPSERIS, no dia 5 de julho de 1971 — véspera do desencarne do Mestre — Wilson foi visitá-lo no Alto Santo, levando sua habitual sacolinha de mantimentos. Naquele encontro, Mestre Irineu o reteve o dia inteiro. Durante a conversa, quando vinha se despedir, o Mestre agarrou sua mão e perguntou: 'Meu filho, quer trabalhar?'
"Pois meu Pronto Socorro fica nas suas mãos, as ordens são as mesmas."
— Mestre Irineu Serra
No dia seguinte, 6 de julho de 1971, Mestre Irineu desencarnou. A viúva Leôncio testemunhou o acontecimento, confirmando que havia visto quando o Mestre delegava o Pronto Socorro a Wilson — conferindo autoridade inquestionável a seu sucessor.
Padrinho Wilson: O Guardião da Linha
Wilson Carneiro de Souza (1920–1998) nasceu no vale do rio Tarauacá, no Acre, filho de migrantes cearenses que chegaram durante o ciclo da borracha. Órfão desde criança, trabalhou nos seringais ao lado de seu único irmão, Nelson, pela própria sobrevivência. Casou-se com Zilda Teixeira no início dos anos 1940, tendo com ela seis filhos.
Com o declínio da economia gomífera, Wilson deixou a seringa e tornou-se magarefe — comprador e matarife de gado nas colônias rurais de Rio Branco, trabalho que o tornava intermediário natural entre a cidade e as zonas rurais. Era conhecido pelo asseio e capricho pessoal, apresentando-se sempre impecável nas festas, com bom traje e perfume — qualidades que reforçavam sua presença respeitável na comunidade.
Na década de 1950, já mantinha negociações comerciais com Mestre Irineu, inclusive adquirindo suínos de sua criação. Contudo, não havia ainda tomado conhecimento da Doutrina. Foi apenas em 1962, quando desenganado pela medicina oficial, que buscou auxílio no trabalho espiritual.
Ao longo dos anos, Wilson desenvolveu um sistema ritual próprio: a Linha de Arrochim, seu hinario de cura. Inicialmente, realizava os trabalhos de cura cantando seu hinário preferido — 'O Mensageiro' de Maria Damião. Contudo, Dona Percília, chefe do ritual no Alto Santo, o corrigiu, explicando que era necessário começar sempre pelos hinos do Mestre Irineu, pois este era o 'tronco' da Doutrina, e seria preciso 'subir' sempre pelo tronco, não pelas ramas.
A partir dessa orientação, Wilson começou a formar um caderno de hinos para seus trabalhos de cura. O hinario que conhecemos hoje como 'Linha de Arrochim' emergiu dessa prática contínua. O nome remete ao espírito curador Arrochim, que aparecia frequentemente citado nos hinários de Raimundo Gomes como uma força que vinha 'como um beija-flor' — símbolo de leveza e precisão na cura.
Este método apresenta características singulares: Concentração absoluta — nenhum instrumento musical (maracá, tamborim, pandeiro) é tocado durante a fase estrita de cura, apenas vozes em uníssono para manter máxima concentração, permitindo que a força do hino seja o único veículo de transformação. Estrutura litúrgica cristã — invocações ao Divino Pai Eterno, a Jesus Cristo Salvador e à Rainha da Floresta, com orações como Padre Nosso, Ave Maria, Prece de Cura e Salve-Rainha. Cadência e vigor — os hinos são cantados de forma cadenciada mas vigorosa, nunca acelerados, para que se compreenda seus ensinamentos e se possa pô-los em prática. Compreensão integrada — a cura não é vista como puramente mágica, mas como processo que combina o acto sacramental (tomar Daime), o desdoblamento de visões, a compreensão profunda das causas da enfermidade, incluindo causas cármicas, e a transformação moral exigida para restabelecimento duradouro.
"Minha missão mesmo é cuidar dos doentes"
— Padrinho Wilson Carneiro de Souza
A meados dos anos 1970, tensões na direção do Alto Santo levaram à separação entre Mestre Irineu e Sebastião Mota de Melo. A diretiva exigia que Sebastião entregasse toda a produção de Daime da Colônia Cinco Mil à sede, suspendendo sua autonomia para realizar trabalhos. Wilson, que havia desenvolvido profunda amizade com Sebastião, pôs-se ao seu lado, retirando-se com sua família das fileiras do Alto Santo.
Embora integrado à linha que Sebastião fundaria como CEFLURIS (depois ICEFLU), Wilson manteve ênfase profunda na cura e nas referências simbólicas de Mestre Irineu, criando um espaço diferenciado. Na década de 1980, quando Padrinho Sebastião mudou-se para a floresta profunda, deixou sob comando de Wilson a direção da Colônia Cinco Mil.
Em 1988, Wilson formalizou sua instituição como CEFLUWCS — Centro Eclético da Fluente Luz Universal Wilson Carneiro de Souza — consolidando um legado de trabalhos de cura reconhecidos academicamente por suas práticas terapêuticas e seu rigor ritual. Nessa época, já viúvo e enfrentando problemas pulmonares crônicos além da diabetes, optou por assumir a presidência honorária e delegou a administração do centro a seu filho mais novo, Raimundo Nonato, que se havia tornado feitor de Daime.
Faleceu em Rio Branco no dia 26 de junho de 1998, aos 77 anos, sendo recordado como 'carneirinho do Mestre' — jogo de palavras que alude tanto a seu apellido quanto às garrafas de vinho reutilizadas para guardar o Daime. Seu túmulo localiza-se na Vila Carneiro, em frente à sede do CEPSERIS.
Padrinho Nonato: A Continuidade da Missão
Com o passamento de Padrinho Wilson em 1998, a missão de cura foi assumida por seu filho, Padrinho Raimundo Nonato Teixeira de Souza. Contudo, a institucionalização formal do CEPSERIS como centro autônomo havia iniciado alguns meses antes — precisamente no ano de 1997, quando Padrinho Nonato assumiu a administração dos trabalhos de cura e deu início à construção da primeira sede dedicada.
Como relata Padrinho Nonato, inicialmente relutou em receber essa responsabilidade. Observava que quando Mestre Irineu entregara o Pronto Socorro a seu antecessor Leôncio, este logo desencarnara; igualmente, quando Padrinho Sebastião entregara a zeladoria ao compadre Valfredo, pouco tempo se passara antes de seu falecimento. Receava, portanto, herdar a mesma sorte.
Contudo, Padrinho Wilson insistiu. Certa ocasião, durante um trabalho, Wilson simplesmente levantou-se de sua cadeira quando Nonato se ausentou, e sentou-se na cadeira de seu filho. Quando Nonato retornou e procurou seu lugar, encontrou Wilson ali sentado: 'Hoje é o senhor e é o senhor mesmo', declarou.
Mais tarde, a esposa de Wilson, Madrinha Zilda, interviu junto ao Padrinho, questionando se ele havia realmente entregue os trabalhos. Wilson então chamou testemunhas — o Padrinho Chiquinho e a própria Graça — e reiterou a delegação, recordando as instruções que Mestre Irineu havia lhe transmitido: 'As ordens são as mesmas. Tudo que o Mestre Irineu me passou, estou entregando tudo nas suas mãos'.
De 1966 até 1997, todos os trabalhos de cura de Padrinho Wilson haviam ocorrido em sua residência particular. O Major Holderness Maia, visitante frequente, sugeriu que as energias acumuladas pelos trabalhos de cura impregnavam a casa de forma que as próprias doenças extraídas dos pacientes rondavam o ambiente — razão pela qual Wilson ou familiares adoeciam com frequência. Essa observação levou à necessidade de construir uma sede separada.
Sob a liderança de Padrinho Nonato, a obra iniciou-se em 3 de maio de 1997. Apoiada por contribuições de irmãos que vinham acompanhando Padrinho Wilson desde a década de 1980 — especialmente Paulo Sarvel e sua família de Minas Gerais, que conseguiram arrecadação através de um 'Livro de Ouro' — a sede foi erguida com 'apurado senso de construção e economia'. Espantou muitos colegas pela velocidade e pouco recurso investido.
Em 3 de junho de 1997, antes mesmo de sua conclusão, realizou-se o primeiro trabalho de cura da Linha de Arrochim na nova sede. Este é o marco oficial de institucionalização do CEPSERIS como centro autônomo.
Padrinho Nonato recebeu seus próprios hinários — O Peregrino e Aconteceu — ampliando o repertório de trabalhos de cura. Estabeleceu filiais em diversas regiões do Brasil, levando a Linha de Arrochim e os ensinamentos de seu pai para novas comunidades.
Inicialmente, o CEPSERIS funcionou integrado ao ICEFLU (Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal). Contudo, em 2008, o Pronto Socorro se desligou oficialmente da Colônia Cinco Mil e do ICEFLU, passando a realizar, além dos trabalhos de Estrela e Linha de Arrochim, os trabalhos oficiais deixados pelo Mestre Irineu, iniciando na noite de São João (23 de junho de 2008).
Sob a liderança de Padrinho Nonato, o CEPSERIS ganhou reconhecimento académico significativo. Etnógrafos como Henrique Fernandes Antunes, doutorando do PPGAS-USP, conduziram estudos de três anos documentando os métodos terapêuticos do centro. Estudos de principais universidades brasileiras validaram uma prática quealia tradição amazônica com eficácia contemporânea no tratamento de enfermidades crônicas e dependências químicas.
De 2008 a 2011, mais de vinte pessoas de diversos estados brasileiros buscaram o convívio com a comunidade para curas de suas enfermidades materiais ou espirituais — e muitas obtiveram êxito em sua busca.
A transição de Padrinho Wilson para Padrinho Nonato representa não apenas continuidade familiar, mas perpétua renovação de um mandato: servir aos enfermos com rigor ritual, fé profunda e fidelidade aos ensinamentos de Mestre Irineu Serra.
Hoje: Um Território de Memória e Cura
O CEPSERIS existe hoje como mais que uma instituição religiosa. É um território de memória onde se preserva a Linha de Arrochim — o método singular de cura que combina concentração absoluta, hinário próprio e observância das tradições amazônicas. Serve como espaço de referência para indivíduos que enfrentam enfermidades físicas e espirituais, oferecendo uma abordagem integrada que tem raízes na sabedoria de Mestre Irineu Serra e na dedicação sem falha de Padrinho Wilson Carneiro de Souza — homem que, em cada gesto de serviço, cumpriu a missão que recebeu: Cuidar dos doentes.